tempos críticos
a vida não é um morango mas calma lá
recentemente vivi uma pequena-grande crise existencial. e de vez em quando a gente precisa ficar meio perdidinha só para encontrar novas rotas para seguir vivendo. percebam o drama sob entrelinhas no uso de metáforas. e não ironicamente, olhando pra trás, percebo que não era pra tanto? mais uma vez fiz tempestade em copo d'água. de fato vim ao mundo com uma característica inerente ao meu ser: qualquer coisinha me afeta.
é uma habilidade nata de superestimar muito do que me acontece. sendo a vida repleta de acontecimentos bons e ruins, parece tão complicado. passei por essa trovoada pensando: imagina só se a gente pudesse olhar as situações como elas realmente são? mas não é assim que funciona. a mente humana é dotada de extrema criatividade e imaginação, uma chuva de noias. e a gente é completamente capaz de criar os piores cenários impossíveis frente a qualquer episódio. é como um filtro que altera a realidade dos fatos. realmente, são muitas emoções.
apesar disso, no geral, tenho uma crença poderosa de que sei aproveitar as experiências positivas que vivo, e também sei deslocar o olhar para as tormentas do mundo. é sempre bom lembrar que a vida não é um morango [me segurei tanto pra não escrever “do amor”, sem sucesso]. enquanto sociedade, não podemos nos abster dos males que afligem nosso tempo. não que a gente consiga resolver muita coisa [mas um pouco, especialmente com vontade política sempre podemos]. e a tristeza e o medo podem sim ser bem paralisantes.
agora pressupondo que quase nenhuma experiência é individual e que eu posso afirmar através de observação empírica [fyi: vi em meu tiktok, li no tuiter e conversei com muitas pessoas em bares] que estamos todos muito sensíveis, beirando um crescente gosto pessoal pela vitimização. parece que finalmente percebemos que o mundo é bem cruel. e claro, desaprendemos a reprimir tudo como as gerações anteriores faziam. isso é lacan! mas pode ser que tenha ficado um pouco de sentimentalismo demais. vide a pandemia de remédios psiquiátricos e os tantos conteúdos on-line sobre depressão de outras cids, que assolam especialmente as pessoas com vinte ou trinta e poucos anos.
acredito que diante de uma realidade tão decadente, ficamos muito intolerantes aos desconfortos. por isso uma hipersensibilidade crescente. faz todo o sentido tentar sobrepor as falhas da sociedade a uma vida fadada a busca incessante pelo prazer, satisfação ou ao bem-estar, como estamos chamando agora. mas o doce só é doce porque existe o amargo.
isso me lembrou um diálogo do filme after the hunt (2025) que—entre outras coisas—é um suco de conflito geracional bem servido: atualmente o sofrimento pode até ser identitário para nós que somos meio jovens. é que até nisso encontramos validação. o que casa muito com uma decepção generalizada após tantos sonhos não realizados e um otimismo chocante prometido no início dos anos 2000, que mais do que nunca estão em alta e devidamente recheados de nostalgia. muita gente tem saudades do que não viveu…idealizar é preciso.
e se só existimos a partir do olhar do outro (isso é lacan!), somos validados enquanto indivíduos quando adotamos um problemão para chamar de nosso. uma muleta narrativa ótima para pessoas cada vez mais auto-centradas. e isso me parece um contraponto perfeito com a artificialidade da nossa imagem retorcida e idealizada tão projetada nas redes sociais. nada é por acaso!
recentemente fiquei obcecada por todo um conceito de estarmos presos em um reality show de nós mesmos. é um grande e confuso panóptico, que altera nossa própria percepção de quem somos e como agimos. foucault usou essa ideia de prisão onde não sabemos que estamos sendo vigiados como metáfora para o controle social moderno, primeiro em escolas, fábricas e finalmente, nas redes sociais. é nesses espaços repletos de ordem e opressão que as pessoas se auto-regulam porque sentem que estão sob olhar constante. e serão punidas se cometerem um erro.
e eu realmente não estou inventado tudo isso. saíram algumas pesquisas de comportamento contando como os jovens adultos sabem que estão sempre sendo observados (especialmente on-line) e agem levando isso em conta. não é uma suposição inconsciente, é uma consciência constante. e dale paranoia de nossos tempos.
mas, mais uma vez, só existimos a partir do olhar do outro. se a gente não mostrar tudo o que gostaria de ser, pode não sobrar nada. e esse medo constante de fracassar mora no post ao lado. falo por mim mesma. muitas das minhas preocupações tem uma raiz na percepção que os outros vão ter de mim. que loucura totalmente humana! mas a vida não é totalmente sobre ganhar ou perder. nem sobre coisas boas ou ruins. tudo coexiste em um espaço muito complexo. nada é tão linear e objetivo assim. é a desordem natural das coisas e a gente precisa conviver com isso.
talvez a chave seja apenas deslocar o sentimentalismo do jogo de espelhos e focar nas emoções de verdade. é preciso sensibilidade até para sair das crises. existenciais. é preciso simplesmente passar através das coisas. não tem desvio possível.
e passada essa torrente de sentimentos devidamente processados, achei que é meio bom sermos seres que sentem tantos sentimentos. até porque depois de tudo, finalmente usei todos os meus gizes de cera pasteis e colei meus adesivos que estavam guardados em lugares totalmente aleatórios. senti que a vida é agora, com tudo o que vem com ela. e o que vem por aí? vamos sentindo.






