tutto passa
o tempo das coisas é definitivamente outro
ainda dá tempo de falar feliz ano novo? não. mas não deixa de ser um ano novo. e na medida do possível, será feliz. e sobre o tempo? antes agora do que nunca! 2026 já inaugurou o tema nostalgia com a trend de 2016. e perceba como não é sobre ver fotos questionáveis com filtro de orelha de cachorro nos stories, mas como um sinal claro de que estamos com saudades de dez anos atrás.
e o que será, exatamente? do impeachment da dilma e do brexit que não é, né? tempos sombrios estes que vivemos. frase atemporal, lamento.
sentimos falta de outra coisa…talvez, saudades de tempos mais simples. ou melhor, de promessas de futuros mais simples em geral. ingenuidade da nossa parte? ou, principalmente, da internet como meio e não como fim (dos tempos). parecia que conseguiríamos mudar o mundo com um post no saudoso feed em ordem cronológica. uau!
2016 foi o ano da inauguração do temercore. para leitores muito jovens, uma estética woke beirando o brega, com frases de efeito que ainda podem ser descobertas como fósseis na internet. exemplos que eu, particularmente, amo: quebrado o tabu, boletos e litrão, meu corpo minhas regras, meu cu é laico, etc. e esse espírito morreu com o “ninguém solta a mão de ninguém", na eleição do bolsonaro. afinal, todo mundo largou mão tranquilamente. vem sempre de quem a gente menos espera.
pensando nisso, até porque o início de ano me deixou mais reflexiva...inclusive, compartilho aqui como detesto fazer aquele apanhado do que ocorreu de fato ainda em dezembro. porque os finais de ano me tiram a paz. e ano passado não foi diferente. na verdade, foi bem pior. mas passou! e em janeiro pude finalmente sentar e criar um destaque dos melhores momentos de 2025 no meu querido perfil no instagram, para me convencer que sequer houveram os piores. seguir em frente é preciso.
bom, como eu estava dizendo, refleti muito e concluí que nunca vivemos tão bem, enquanto nunca vivemos tão mal — perceba o paradoxo. estamos vivendo muito melhor do que as gerações passadas: a medicina avançou horrores, há mais liberdade em geral(?), e em termos de qualidade de vida estamos curtindo adoidado pedindo ifood, andando de uber, assistindo streaming de origem duvidosa e usando cosméticos dermatológicos de última geração. ao mesmo tempo, saímos perdendo muito em termos de faculdades mentais.
vejamos: governos autoritários e movimentos conservadores em ascensão. imperialismo e neocolonialismo rolando solto. guerras que não acabam e genocídio massivo e chocante. ondas de calor, chuvas torrenciais e catástrofes climáticas em geral. o que leva a desconfiança nas instituições e desesperança. não há saúde mental que aguente, lamento. talvez a gente esteja mais consciente disso tudo porque está tudo a apenas um view de distância. obrigada, super rede mundial de computadores!
e no meio disso tudo, ainda temos que render no trabalho e enfrentar uma constante pressão social de performar para um coletivo que está te julgando — falo isso como uma pessoa que também está te julgando. não é nada pessoal, é algo sobre os tempos nos quais vivemos, só isso.
talvez seja por isso que estamos experimentando o auge de um constante revival dos anos 2010, sonhando com a volta da britney spears e da rihanna em um megashow, usando comics sans, blusas frente única e cintura baixa. e claro, ouvindo muito o hit do momento stateside das divas pinkpantheress feat zara larsson.
aliás, midnight sun é completamente retrato do tempo em que vivemos. ou a manifestação do futuro que queremos vivenciar urgente: luz solar, looks coloridos, golfinhos saltando com flores no cabelo. estamos buscando recuperar o feliz no simples! seria um falso otimismo? but fake it until you make it. esse video da ana mary b prova meu ponto. ou me deixou um pouco mais ana. estas são sim as vozes de uma geração.
dizem que é nos períodos históricos mais difíceis que as músicas felizes fazem mais sucesso, como um contraponto (algo que a arte faz direitinho desde que o mundo foi inventado). a era passada brat pode ser um sintoma disso também? é fato que o summer eletrohits assim como o dancemusic voltaram com tudo, e não é de hoje. talvez agregados de um esvaziamento da dança como política e resistência. mas esse é um outro tópico (off).
pode ser que tudo seja apenas um retrato da crise dos 30. e dos 25. e dos 18. e de tantas pessoas na fase adulta que sentem que estão envelhecendo a cada ano, um sentimento totalmente universal. isso vem carinhosamente acompanhado do medo constante do futuro incerto. não que as outras gerações não tivesse suas inseguranças.
enfim, é meio brutal compreender que nada nunca mais será como antes. e que a gente nunca vai sentir de novo aquela sensação de descobrir algo novo, porque só se vive uma vez, literalmente.
mas ainda acredito que a gente possa se impressionar com o que vem por aí positivamente (espero). a vida sempre guarda algo novo. agora bota essa tatuagem de velho napolitano no seio bronzeado e vamos sentindo a cruel passagem de nossos tempos.







